Domingo, Julho 05, 2009

Comportamentos

Há comportamentos que me deixam, de certa forma, perplexo. Diariamente assisto, incrédulo, a pequenas pérolas da estranha forma de vida do ser humano.
No ínicio de Junho tive a felicidade de estar em Alvalade para assistir ao concerto dos AC/DC. Digo "felicidade" porque foi apenas e só o melhor concerto a que tive oportunidade de assistir em toda a minha vida. Esquecendo aquilo que me levou lá, isto é, o concerto, a ida a Alvalade permitiu-me constatar, ou melhor, comprovar, uma coisa extraordinária: a estupidez e a inutilidade de alguns dos nossos comportamentos. O que é que leva uma pessoa aparentemente normal, a tentar encontrar num estádio cheio com milhares de pessoas, uma outra pessoa, com quem está a falar ao telemóvel, a centenas de metros de distância? Assisti a isto durante quase todo o tempo que antecedeu o concerto. Exemplo: O tipo A avista das bancadas, sabe-se lá como, o tipo B, com quem já não está desde...ontem!!?? Logo pega no telemóvel, essa arma sempre pronta a disparar chamadas e mensagens, e liga ao tipo B:
- A: Tou!? B? É o A pá! Tás bom?
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- A: Eu também pá! Por isso é tou a ligar meu! Tou-te a ver! Eh! Eh! Bestial!
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- A: O quê? Tou na bancada! Mesmo atrás de ti! Olha tou-te a dizer adeus agora!

Este tipo de técnica para nos encontrarem num estádio é muito eficaz, especialmente quando constatamos que para alem do tipo A existem mais 20 tipos a dizer adeus, de telemóvel ao ouvido, a olhar para o relvado.
Quando o tipo A se apercebe disto logo arranja outra técnica mais eficaz:

- A: Sou aquele da t-shirt preta! Já me viste? Tou mesmo à tua frente pá!

Brilhante. Num concerto dos AC/DC qual será a percentagem de pessoas com t-shirts pretas? A coisa só melhora quando, por incrível que pareça, se torna mais ridícula.

- A: Olha estou a fazer ondinhas com os braços e a abanar-me de um lado para o outro! Já me viste?

Na verdade, só quando o tipo à minha frente se transformou numa dançarina do ventre é que foi, finalmente, avistado pelo amigo. Resultado:

- A: Já me viste? Boa! Porta-te bem. Bom concerto! Tchau!

Aquele espectáculo todo só para que o outro tipo o visse e depois "Tchau"? Porquê? Ele não acreditaria que ele lá estava sem o ver? E não podia esperar para amanhã? Qualquer coisa como: Olha, ontem vi-te no concerto! Gostaste?
A pessoa que estava comigo lembrou-me de uma coisa também interessante. Porque é que desejamos um "bom concerto", o tipo por acaso vai tocar?!
Curiosidades à parte, tenho que terminar dizendo que o concerto não foi apenas bom, foi brilhante. Pagava o dobro daquilo que paguei se me garantissem assistir exactamente ao mesmo espectáculo.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Se eu morrer...

Eu tive uma mãe que sabia rezar. Se eu morrer e a minha alma se perder, a culpa será unicamente minha. Nina Simone cantou umas frases muito semelhantes a estas num dos meus temas preferidos. Não sei se a minha mãe sabe rezar. Se souber, à luz do facto de me ter como filho, tenho a certeza de que já o fez várias vezes e, provavelmente, a mais do que um Deus. Julgo que ela viu sempre Deus como algo que não se sabe muito bem se existe ou não, mas devemos agir como se existisse, não vá o Diabo tecê-las e o fulano estar de facto sentado a comandar as nossas existências. Talvez por isso se irritasse muito quando eu, herege e ateu até à ponta dos cabelos, desdenhava de tudo o que é religioso e dizia, alto e para quem quisesse ouvir, que Deus existe tanto como o Pai Natal. Talvez vivam juntos e até participem em marchas pelos direitos dos homossexuais. Aquela túnica nunca me enganou. Naturalmente brinco, apenas isso.
Contudo, é um facto que não acredito na existência de um Deus, qualquer que seja. Não existe ninguém que mande mais na minha vida do que eu próprio, logo sou eu o meu Deus. Honestamente, parece-me que a criação de religiões não passa de uma fachada para dar sentido à vida daqueles que não são confiantes o suficiente para fazer depender de si próprios o sucesso ou dos que são demasiado fracos para atribuir a si próprios o fracasso. É mais fácil para todos dizer, após uma desgraça, que "aconteceu por vontade de Deus" e depois de algo bom "graças a Deus". É mais fácil pedir a Deus do que a nós próprios. Dá menos trabalho. Rezar é talvez uma das coisas mais absurdas e inconsequentes que existe. Onde está a lógica? A ideia que mais me assalta é a de estar um tipo, alemão, a rezar antes de partir para a guerra. A centenas de quilómetros de distância está um tipo, norte-americano, a fazer precisamente o mesmo. O tipo alemão está vivo, o outro não. Rezaram ao mesmo Deus. Entraríamos agora numa discussão sobre merecer ou não ser ouvido. Não passaria de tempo perdido. Morrem pessoas boas e más. Simplesmente morrem. Ninguém decide isso, a não ser um conjunto de circunstâncias e decisões que, conjugadas, nos conduzem até ao dia em que respiramos pela última vez. Se existir um Deus que decide tudo desafio-o a acabar com a minha vida agora mesmo ............................................... hmmm, ainda aqui estou. Quem manda na minha vida sou eu, quem faz o meu destino sou eu. Sou o único responsável pelos meus actos. Se eu estiver enganado em relação a tudo isto e morrer, a minha alma ficará para sempre perdida, é verdade, mas a culpa será unicamente minha.

Terça-feira, Abril 14, 2009

Tragédia Portuguesa

Nós, seres humanos, temos uma propensão absurda para tragédia. Interessa-nos de sobremaneira tudo o que é desgraça. Nós, portugueses, não temos propensão para a tragédia, nós simplesmente vivemos para ela.
Não nos interessa um documentário na televisão acerca de uma qualquer mulher de grandes méritos. Podiam ressuscitar Joana d'Arc para ser entrevistada em directo e ninguém ia querer saber. No entanto, colocamos uma quase desconhecida num documentário que acompanha os últimos dias da sua vida inútil e repleta de momentos...insignificantes e "voilá"! Audiências! Comentários pelas mais diversas figuras públicas em inúmeras revistas da especialidade (partindo do princípio de que a ineptidão é uma especialidade). Porquê? Porque adoramos ver. Somos "voyeurs" profissionais, mas selectivos. O tema só nos interessa se for, de facto, incrivelmente invasivo. Um documentário televisivo em que podemos acompanhar alguém até à morte é perfeito para nós. Podemos brincar às opiniões, afirmando com ar entendido no café: "É um acto de coragem, eu fazia o mesmo!" ou "Acho que ela ama mesmo muito os filhos, é uma mãe exemplar!"
Com franqueza, isto é exactamente a mesma coisa que parar junto a um acidente e dizer, com o mesmo ar entendido: "Tem ali arranjo para 600€!"
Diz-se que a tragédia é grega mas eu digo que é portuguesa.
Eu, pessoalmente, também convivo bem com a tragédia, deliro com ela. Mesmo a que acontece na minha vida ou à minha volta faz-me rejubilar.
Em Portugal gostamos, de facto, de tragédia, mas na vida dos outros, e quando chega a nossa vez não sabemos o que fazer, choramos desalmadamente, somos fracos, sentimos pena de nós próprios e rezamos, como nunca, para que ninguém tenha a fome dos abutres, como nós outrora tivemos.
Aconselho vivamente os documentários em fim de vida porque resultam financeiramente. Se eu tiver a infelicidade (ou não) de saber quando vai acabar a minha existência talvez faça um. Fala-se em morte assistida quando se pensa em eutanásia, mas para mim a morte assistida é isto. Nunca foi a morte tão assistida.

Segunda-feira, Abril 06, 2009

Acordados?

O que são os sonhos? Pergunto-me várias vezes. O meu sono conturbado obriga-me quase a viver duas vidas de tanto que sonho (intriga-me o facto de termos que usar o verbo sonhar mesmo quando se tratam de pesadelos: posso dizer que hoje sonhei mas não posso dizer que hoje "pesadelei" que é o que me acontece com mais frequência). No meu caso, adormeço a querer abrir os olhos e acordo por vezes a querer fechá-los. Parece que nunca estou como devia. E a noite, essa, é mais agitada do que muitos dos meus dias. Adoro pesadelos. Adoro a sensação de acordar com a sensação de ter as mãos cheias de sangue que no segundo seguinte desapareceu; a sensação de cair de um prédio de 10 andares e acordar antes de embater no asfalto; a sensação de fugir da morte, noite após noite, escapar às suas garras eternas sem, na verdade, nunca estar em perigo. Ou será que estive?
O meu escritor nacional de eleição, Mário de Sá Carneiro, acreditava que o perigo, em sonhos, não deixava de ser real. Disse-o colocando as suas ideias no cérebro de um personagem fantástico que criou. Não me quero enganar, mas julgo que o seu nome era Professor Ventoinha. Ele acreditava que aquilo que vivíamos em sonhos, e o que vivíamos durante o dia, no quotidiano, eram vidas paralelas. Era esta a sua explicação para a sensação estranha, mas comum, de "déja vu" que julgo já nos ter assolado a todos, pelo menos uma vez na vida. Ele acreditava que tínhamos que viver uma vida durante o sono para que o tempo e o espaço não colidissem, mas acima de tudo que a nossa massa corporal não existisse em simultâneo em duas vidas, o que significaria a morte. Rebuscado? Não sei. Imaginem que de facto existem duas vidas que vivemos, que durante o sono saímos de dentro desta embalagem e vamos preencher outra, noutro mundo. Não tem que ser uma embalagem igual, não temos que ser nós outra vez. O escritor defendia que o corpo que teríamos na vida paralela não seria o mesmo, mas nós, na impossibilidade cerebral de nos imaginarmos diferentes, teríamos que nos lembrar dos sonhos sendo iguais a nós próprios. Imaginem só o mundo de possibilidades que esta ideia, quase absurda acaba por nos trazer à mente. A imaginação é a nossa arma mais poderosa, não tenho dúvidas disso. Há duas coisas que distinguem a competência simples da genialidade absoluta: a imaginação e a criatividade. Ah, é verdade, esqueci-me de contar, o Professor Ventoinha passou os seus dias a tentar descobrir uma forma de sonhar acordado, de unir as suas duas existências, e conseguiu. Morreu nesse preciso instante. Puxem pela vossa imaginação e descubram só que vidas viverão enquanto aqui dormem. Alguma vez morreram em sonhos? Eu não, nunca, e pergunto-me porquê? Talvez eu tenha duas existências, mas apenas uma vida. Agrada-me saber que, uma vez que detesto dormir, não estarei a perder o meu tempo, não desta forma. A ideia pode ser ridícula, do ponto de vista científico sê-lo-á certamente, mas é a melhor ideia que já ouvi ou li acerca dos sonhos e é aquela em que escolho acreditar. Mas isto leva-me a outra questão interessante. Enquanto aqui escrevo, neste preciso momento, naquela que eu acredito ser a minha vida, não estarei antes num sonho? Não será esta a vida paralela? Não terei outra existência real e isto é só, o que na outra vida, vou contar pela manhã aos colegas no trabalho: "Porra, pessoal, hoje tive um sonho estranho..."

Terça-feira, Março 31, 2009

Incondicional

Pernoitei em ti confesso
na sombra de ti comigo
Sei hoje que só eu consigo
amar-te sem regresso

Posso vingar todos os dias
todos em que não te amaram
dias que te despeitaram
não conheciam como sorrias

Mas eu vi como ninguém
o teu rosto luminoso
acorrentou-me e foi perigoso
estar assim dentro de alguém

Achaste que eu zombava
que era impossível amar assim
e que pensando só em mim
criativamente inventava

Jurei-te a derradeira prova
o dia em conhecerias afinal
o meu amor incondicional
nem que tal me levasse à cova

Um dia, amarrei-te inconsciente
a uma cama, amordaçada
para que só depois de acordada
pudesses ver finalmente

A prova única que faltava
o momento da verdade
de crua felicidade
em que saberias que te amava

Acordaste em frente ao espelho que ali pus
reflectindo a tua cara derretida pelo ácido
o que outrora era electrizante, agora plácido
escondia o choro dos teus olhos crus

Não entendi, quanta injustiça
não entendeste a intenção, a prova dada
quanto ninguém te quer agora deformada
beijo-te eu a face rugosa e mortiça.

Domingo, Março 22, 2009

Sonhei...

Esta noite sonhei contigo. Bebias descontraída um café numa esplanada e eu observava-te, de longe, sem que desses por mim. Discretamente penteavas o cabelo sempre que passava alguém. Alguém que, pelo menos, pudesse ser do teu interesse. Folheavas uma revista, fútil em todos os teus gestos, estavas a matar tempo, claramente. O vento trazia-me o teu cheiro e eu não resisti, fui ter contigo, no meu sonho eu fui ter contigo. Ficaste feliz por me ver, pelo menos pareceste feliz depois da surpresa inicial. Falámos durante alguns minutos e parecias radiante quando te inclinaste para me beijar. Acordei.
Olho rapidamente para o lado, na cama, e ainda lá estás. Respiro de alívio. Deixaste de respirar há pouco mais de duas horas e pareces ainda libertar um estranho calor. Os teus olhos vítreos, petrificados, quase simulam um brilho próprio, mas não serão mais do que o reflexo do brilho que pousa nos meus. Estou feliz. Estás a meu lado. Ter-te assim, inerte e ausente, dá-me tempo para te ver, para te ver realmente, em detalhe, examinar-te, beijar-te, amar-te. Esvaziei-te de tudo o que não prestava em ti, limpei-te, formatei o teu corpo. Deixei apenas a obra, a arte, e eliminei tudo o resto, risquei o que não interessava. Ficaste tu. Que culpa tenho se te perdeste no caminho. Que culpa tenho se apenas sem vida permaneces pura. Agora és minha. Possuo-te.

Domingo, Março 01, 2009

Uatafak'in Mentor

Escreve-vos o mentor deste blog. Bem sei que não tenho escrito tanto quanto eu desejava, mas certamente mais do que vocês desejam ou estão dispostos a aguentar. A minha capacidade para passar para algumas linhas o que vertiginosamente me assola a mente já foi maior. Confesso. Tenho, no entanto, procurado levar à prática algumas das ideias que, até agora, não tinham passado de meros posts com discutível piada ou interesse. Daí que a minha disponibilidade não seja tanta.
Perguntava-me alguém num outro dia porque tinha eu que ser assim. Perguntei: Assim como? Resposta pronta: obsceno, perverso, profeta da desgraça, sádico, frio e delirante com a desgraça alheia. Assustei-me. Não pensei que existisse alguém que me conhecesse bem a este ponto. Uma coisa é alguém ler o que eu aqui escrevo e descrever Goth Mortens, o meu alter-ego, eu diria. Outra coisa, arrepiante, é alguém falar de mim e descrever-me com esta perfeição. Tudo aquilo que sou e procuro não parecer estava ali, em meia dúzia de objectivos baratos de jornal diário. Pensei. Rebusquei razões, motivos lógicos. Defendi-me. Armei os campos de forças. Tenho duas vidas e só uma é realmente minha, e até aquele dia eu achava ser o único que sabia qual das duas era a minha. Porque é que eu sou assim? Repeti, respondendo de imediato: E porque não? Antes assim que hipócrita. Eu gosto de mim assim. Recuso-me a ser feliz, apenas delirante. O fato impecável, a gravata e os botões de punho dão-me um ar respeitável, escondem cada defeito, tatuagem ou cicatriz. Perdi o ar skin quando deixei crescer o cabelo que agora penteio com gel o que me dá o ar clean que as pessoas gostam de ver e respeitam. Mas não sou eu. Tenho saudades de mim durante o dia, e à noite mato-as. Senti-me um cobarde, por vezes, mas a necessidade de trabalhar fez-me assim, e, na verdade, deu-me dinheiro para cumprir algumas das minhas auto-profecias. Agora já não me sinto assim, até me agrada a ideia de levar esta vida dupla, de estar em frente a pessoas que me respeitam sem saber o que sou na realidade. Apenas alguns sabem, poucos. Tenho o meu refúgio. Durante o dia uso uma máscara e depois? O que importa? Desde que não deixe de ser eu lá dentro. Não sou assim tão mau, ou serei? Não interessa. Continuo a gostar de ver emigrantes de leste semi-nuas, rainhas gótico-eróticas e sexo com anãs. Não mudo. Sou frio? Nem tanto: há uma morte que me deixará inconsolável: a minha.